- FutInter
- A Saga do Gauchão: Do Octa Colorado à Busca Tricolor pela Hegemonia
A Saga do Gauchão: Do Octa Colorado à Busca Tricolor pela Hegemonia
Por Redação FutInter em 05/03/2025 15:20
O Clássico que Incendeia o Rio Grande do Sul
O Rio Grande do Sul se encontra em um estado de espírito à parte, quase alheio ao restante do mundo e à sua própria realidade. Em meio a um calor intenso que persiste por semanas, com temperaturas próximas aos quarenta graus, a atenção se volta para o confronto Gre-Nal, um evento que promete elevar ainda mais a temperatura, tanto nos ânimos quanto no campo de jogo. No próximo sábado, às 16h30, na Arena, Grêmio e Inter iniciam a disputa pelo título do Campeonato Gaúcho, um dos mais tensos das últimas décadas. O Grêmio busca igualar a sequência histórica de oito títulos consecutivos conquistada pelo Internacional na década de 1970.

A Era de Ouro do Internacional e o Surgimento do Beira-Rio
A sequência vitoriosa do Internacional teve suas raízes no Beira-Rio, um estádio erguido em meio a tempos difíceis e de resistência para o clube. Durante a construção do estádio, iniciada em 1957, o Internacional conquistou apenas um título gaúcho em treze anos. A vitória no campeonato de 1961 interrompeu uma série de cinco títulos do Grêmio, mas não conseguiu impedir a sequência de sete triunfos tricolores entre 1962 e 1968, um feito notável na história do futebol gaúcho.
Naqueles tempos de dificuldades, os torcedores do Internacional encontravam conforto e esperança ao visitar as obras do Beira-Rio, buscando um futuro promissor além do concreto. O presidente do clube na época, Carlos Stechman, observou: "Parece que eles estão torcendo pelos operários. Que torcida espetacular". E todos estavam certos: torcedores, operários e o presidente. Após a inauguração do Beira-Rio, o futebol gaúcho nunca mais seria o mesmo.
Em 6 de abril de 1969, na inauguração de sua nova casa, então o maior estádio particular do mundo, o Internacional venceu o Benfica (de Eusébio) por 2 a 1. No entanto, todos sabiam que o verdadeiro confronto estava por vir: o primeiro Gre-Nal no Beira-Rio, que ocorreu algumas semanas depois. O resultado foi um empate sem gols e vinte jogadores expulsos, em uma briga generalizada. A rivalidade e a disputa por território sempre foram intensas no futebol de Porto Alegre.
Primeiro Gre-Nal no Beira-Rio em 1969 terminou em pancadaria ? Foto: Agência RBS
Meses depois, outro empate teria consequências significativas. Após a inauguração do Beira-Rio, o time treinado por Daltro Menezes retomou a hegemonia no futebol gaúcho ao empatar sem gols com o Grêmio. Na partida, Valdomiro chegou a marcar um gol, que foi anulado de forma controversa pelo árbitro Zeno Escobar Barbosa, que mais tarde admitiu o erro. Essa situação levou o dirigente colorado Ibsen Pinheiro a entrar em campo e advertir o juiz sobre as possíveis consequências caso o Internacional não conquistasse o título, mencionando a possibilidade de tumulto na "Coreia", a área popular do estádio.
A Hegemonia Colorada e o Domínio no Clássico
O Beira-Rio transformou o cenário do futebol gaúcho. Nos anos seguintes, o Grêmio não conseguiu chegar às finais do campeonato, que foi vencido repetidamente pelo Internacional , sob o comando de Dino Sani, contra equipes do interior. Foi nessa época que o Internacional estabeleceu a maior sequência invicta na história do clássico: de outubro de 1971 a julho de 1975, quase quatro anos, o Internacional não perdeu para o Grêmio em 17 jogos, com dez vitórias e sete empates. Os jogos eram disputados, mas o Grêmio invariavelmente falhava contra o que se tornaria o maior time brasileiro da década.
No Gre-Nal que decidiu o campeonato de 1974, o Grêmio exigiu o máximo de Manga, mas no final, o zagueiro uruguaio Ancheta, um dos melhores da Copa de 1970, mas que nunca havia vencido um Gre-Nal desde sua chegada ao Grêmio quatro anos antes, desviou uma bola de cabeça para a área, onde Valdomiro marcou o gol que garantiu o sexto título e quase desencadeou uma nova crise.
A conquista do Campeonato Brasileiro de 1975 foi um marco para o futebol gaúcho, representando a primeira vez que um time do estado triunfou em nível nacional. Ao mesmo tempo em que conquistava o Brasil, o time de Rubens Minelli também igualou o recorde de sete campeonatos gaúchos do rival Grêmio. O Internacional se tornou um time de destaque nacional, enquanto o Grêmio ansiava por voltar aos tempos de glória.
Valdomiro esteve presente nos oito títulos colorados. ? Foto: Reprodução
A Reação do Grêmio e o Clima Bélico no Gauchão de 1976
Esses eventos intensificaram a rivalidade Gre-Nal, elevando o Campeonato Gaúcho de 1976 a um nível de confronto explícito. Para defender sua honra, o Grêmio lançou uma campanha massiva de rádio e televisão, incentivando os torcedores a comprar títulos patrimoniais para financiar a contratação de reforços. "O Grêmio conseguiu inventar a máquina de fazer dinheiro. Seu único problema: é muito lenta. E talvez não produza a tempo o capital necessário para a formação de um time capaz de enfrentar o Inter", dizia um texto da revista Placar de fevereiro daquele ano. O clube contratou o goleiro Agustín Cejas, ex-Santos, o lateral-direito Eurico, do Palmeiras, e o atacante Alcino, que estava no Remo.
Enquanto isso, o Internacional reforçou seu elenco com o atacante Dadá Maravilha, para substituir Flávio Bicudo. O clima tenso do Gre-Nal chegou a irritar o carismático centroavante, que declarou: "Aqui nesta terra é impossível o futebol-espetáculo. Mas eu vou entrar nesta guerra. Ah, se vou", após trocar socos com o uruguaio Ancheta.
O Octacampeonato do Internacional e o Legado de Escurinho
O confronto contou com a participação de Escurinho, um jogador elegante e um dos maiores cabeceadores do futebol brasileiro. Criado na Ilhota, região negra de Porto Alegre, ele foi o primeiro jogador em atividade no Brasil a gravar um disco enquanto jogava. Escurinho também fazia o Grêmio "dançar o samba de uma nota só", marcando gols importantes, como o que garantiu a vantagem na final ao Internacional em 18 de agosto de 1976.
Capa de Zero Hora no octa do Inter ? Foto: Reproduçao
O Beira-Rio, inaugurado sete anos antes, nunca havia visto o Internacional perder uma decisão. Estádio e time formavam uma fortaleza praticamente inexpugnável. Mesmo reforçado, o Grêmio não conseguiu competir com esse cenário. Com gols de Dario e Lula, o Internacional conquistou o inédito octacampeonato. Dadá marcou um gol memorável, encobrindo Cejas, e anos depois comentou: "Naquele Inter, eu até cheguei a jogar bola". No dia seguinte, o colunista gremista Paulo Santana publicou em sua coluna no jornal Zero Hora apenas uma frase, escrita na vertical e em fonte destacada: "ENEA, NÃO". O nono título não veio, mas meses depois o Internacional conquistou o segundo Campeonato Brasileiro, com um aproveitamento de 84%, um recorde ainda vigente na competição.
Naqueles anos, o Gre-Nal representava uma disparidade: o Internacional se encaminhava para ser o maior time brasileiro da década, enquanto o Grêmio enfrentava dificuldades. Hoje, as circunstâncias são diferentes, e ambos os clubes conquistaram e sofreram muito desde então. No entanto, a rivalidade permanece acesa, e a expectativa para o próximo confronto é grande. Independentemente do resultado, a paixão e a emoção estarão presentes.
Com gol de Flávio Bicudo, Inter vence Gre-Nal e conquista o hepta em 1975

Curtiu esse post?
Participe e suba no rank de membros